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Sincronizar o treino com o ciclo: o que os dados sustentam e o que não sustentam

Escrito por Pedro Thomaz · 7 MIN DE LEITURA ·

O cycle syncing — ajustar o treino às fases do ciclo menstrual — tornou-se conselho corrente no conteúdo de fitness, quase sempre como um modelo arrumadinho: carregar na primeira metade, aliviar na segunda. A fisiologia por trás é real. O modelo não é, porque a dimensão e o sentido do efeito variam enormemente de pessoa para pessoa. É precisamente por isso que esta é uma pergunta para os teus próprios dados e não para um infográfico.

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O que muda mesmo ao longo de um ciclo

Há duas coisas razoavelmente estabelecidas. A temperatura corporal sobe depois da ovulação e mantém-se elevada durante a fase lútea, tipicamente umas décimas de grau — que é exatamente o que permite à tendência de temperatura do Oura estimar a fase do ciclo. E a variabilidade da frequência cardíaca tende a ser mais baixa, com a frequência em repouso ligeiramente mais alta, na fase lútea tardia, refletindo uma mudança no equilíbrio autonómico. São tendências populacionais com suporte decente, e são marcadores fisiológicos, não medidas de desempenho.

Onde a evidência fica fina

O salto de «os marcadores mexem-se» para «treina de forma diferente» é onde a confiança ultrapassa os dados. As revisões de desempenho de força e resistência ao longo das fases encontram, em geral, efeitos pequenos, inconsistentes entre estudos e muito variáveis entre indivíduos: há quem note imenso e quem praticamente não note nada. Boa parte da investigação assenta ainda em amostras pequenas com métodos variados. Isto não quer dizer que o cycle syncing seja disparate; quer dizer que a literatura não sustenta entregar a toda a gente um modelo genérico de quatro fases.

Os fatores que partem o modelo

Há várias coisas que baralham o conselho padrão. A contraceção hormonal altera ou achata por completo a oscilação hormonal, pelo que um modelo construído sobre ciclos naturais pode não se aplicar de todo. A duração do ciclo varia entre pessoas e entre meses, por isso um plano baseado no calendário desalinha-se. E a estimativa de fase de qualquer dispositivo é exatamente isso — uma estimativa, inferida da temperatura e da frequência cardíaca, não medida hormonalmente. Trata a etiqueta de fase como uma hipótese útil, não como um facto.

O que fazer em vez disso: lê o marcador, não o calendário

A versão do cycle syncing que sobrevive ao escrutínio é pouco glamorosa: treina como treinarias normalmente e ajusta a carga nos dias em que os teus próprios marcadores de recuperação o pedirem, independentemente da fase que um gráfico diga. Se a tua VFC está deprimida e a frequência em repouso subiu na fase lútea tardia, isso é razão a sério para tornares o dia mais leve. Se não está, não há motivo para travares só porque o calendário o diz. O mesmo princípio de qualquer outro sinal: a referência é a tua linha de base, não uma média populacional.

Como descobrires se se aplica a ti

Regista dois ou três ciclos completos antes de tirares conclusões, porque um único ciclo não consegue separar um efeito de fase de uma semana má qualquer. Vê se a tua VFC, a frequência em repouso e a qualidade do sono desenham uma forma repetida alinhada com o teu ciclo, e se o esforço percebido no treino a acompanha. Há quem encontre um padrão forte e consistente que vale a pena planear. E há quem descubra que a variação do dia a dia engole qualquer efeito de fase — e esse resultado também é genuinamente útil, porque te liberta de uma regra que nunca te ia assentar.

O Vitra lê a fase de ciclo do Oura ao lado da tua VFC, frequência cardíaca em repouso, temperatura e sono no teu Mac ou PC, e as suas sugestões apoiadas em investigação têm em conta os efeitos de fase conhecidos: uma VFC deprimida durante a fase lútea é assinalada como padrão esperado e não como alarme. Tudo é comparado com a tua própria linha de base móvel e calculado localmente, sem que os teus dados de saúde saiam da tua máquina. Informação geral, não aconselhamento médico; alterações do ciclo que preocupem são conversa para um profissional de saúde.

Perguntas frequentes

O ciclo menstrual afeta mesmo o desempenho desportivo?
As revisões encontram, em geral, efeitos pequenos em média, inconsistentes entre estudos e muito variáveis entre pessoas. Marcadores fisiológicos como a temperatura corporal e a VFC deslocam-se de forma fiável ao longo do ciclo, mas isso não é o mesmo que uma alteração mensurável de desempenho numa pessoa concreta. Na prática, testa-o com os teus próprios dados em vez de adotares um modelo genérico.
Porque é que tenho a VFC mais baixa na fase lútea?
A fase lútea traz uma mudança no equilíbrio autonómico, que costuma aparecer como variabilidade algo menor e frequência em repouso ligeiramente mais alta, a par da subida de temperatura que se segue à ovulação. É um padrão reconhecido e não um sinal de que algo está mal — embora, se coincidir com mau sono ou treino pesado, os efeitos se somem.
O cycle syncing funciona se tomo contracetivos hormonais?
Muitas vezes não na forma padrão. A contraceção hormonal altera ou suprime a oscilação hormonal natural, pelo que um modelo construído sobre ciclos naturais pode não corresponder à tua fisiologia. Acompanhar os teus próprios marcadores de recuperação durante uns meses é um guia bem mais fiável do que qualquer plano por fases.
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Sobre o autor
Pedro Thomaz

O Pedro Thomaz desenvolve o Vitra, uma aplicação de secretária que lê os dados do Oura contra a tua própria linha de base em vez de uma média populacional. Usa um anel diariamente há anos e vê estes mesmos números todas as manhãs — é daí que vem quase tudo o que aqui se escreve. O Vitra não é um dispositivo médico e nada neste blog é aconselhamento médico.

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